13 de setembro de 2017

Ternura | Vinícius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente 
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora. 

Vinícios de Moraes

2 de junho de 2017

Choro bandido


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um Deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

Chico Buarque e Edu Lobo

23 de novembro de 2016

A Biblioteca Vazia

Conto escrito sobre A Biblioteca, de Zoran Zivkovic.

Caros companheiros do clube de leitura

Pareceu-me apropriado sugerir que nos encontrássemos hoje para uma degustação. No encalce de Zoran cada um de nós deliciar-se-ia com o seu livro, partilhando os sabores originais que tal manjar descobriria, ou não…contudo… encontro-me impedida de o fazer.

Terminada ontem a leitura, guardei como sempre o meu Zoran, na minha mochila, no seu compartimento. Esta seria a última vez que nos veríamos. Em casa, quando mergulhei a minha mão para recolher, ciosa, e uma a uma, todas as bibliotecas lidas, não as encontrei. Nenhuma, sem explicação e sem rasto.

Nunca, nenhum livro, por muito fraco, decrépito, ruim ou danado que fora, se atrevera a deixar alguém. Mas Zoran fê-lo. Zoran atreveu-se a desafiar o impossível. Zoran chamou-me de modo furtivo e dissimulado, abraçou-me, levou-me por atalhos singulares e estrangeiros. Desafiou-me no exato e cirúrgico modo que sabia me aprazer e, depois, sem mapa e sem código secreto ainda revelado, partiu.

Ainda estranha, só, e desconvencida, entrei no hall da minha casa e olhei para o irreparável. Nada me aguardava. As estantes, onde nas horas anteriores e matinais se acomodavam ainda, confortáveis, afeitos e familiares, inúmeros livros de tantos tamanhos, cores e cheiros, estavam agora despojadas e desoladas no seu vazio. Tristes e culpadas por, de algum modo, terem falhado na sua guarda.

Cheirei-as no desespero insano deles ainda estarem por ali, de algum modo, num estado existencial improvável. Nada. Apenas um vazio clórico e estéril.

Aquele espaço é agora um bairro desalojado e ímpio. Sem misericórdia e sem perdão. Não há ninguém a quem procurar, não há ruído de viagens naquela primeira estante, não serei mais saudada pelos poetas encostados na estante do meio, que me cantam, e me amam, sem compromisso e sem abandono, não terei mais conversas ao final do dia com os livros que me esperavam junto à porta. Não saberei de mais intrigas, ou mal entendidos, das mortes ocorridas, as lutas travadas, a vida gerada.

Resta-me a biblioteca vazia.

Preciso encontrar Zoran. Ele terá de me revelar esta singularidade.

Não sei se chegarei a tempo ao nosso encontro...

8 de novembro de 2016

Screen I


Alexandra Hedison

Explicação da eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim. 


José Luís Peixoto

12 de outubro de 2016

Queda

O vazio
cai
abissal
no rasgo
dos olhos

Carlos Couto Amaral
O Alpinista Descendente, é o livro que abre hoje a 2ª época do Clube de Leitura da Livraria e Papelaria Espaço, em Algés